"Loucura, eu penso, é sempre um extremo de lucidez. Um limite insuportável."
domingo, 30 de janeiro de 2011
A mulher destecelã
Eu tive que desfazer depressa, descosturar tudo antes que você chegasse. Eu desfiei as noites em que você me abraçaria e me aqueceria, enrolando seus sonhos nos meus cabelos. Noites embaixo de árvores, folhas secas no chão, carinhos lentos, risos baixos, vida completa. Eu desbordei uma tapeçaria de segredos. A cumplicidade que teria com você, as nossas mãos se tocando como que ao acaso. Eu precisei desmanchar meus carinhos no seu rosto, antes que você os visse. Eu, depressa, descosi os sorrisos que daria, os bilhetes que enfiaria nos seus cadernos, os telefonemas que daria escondida. Eu precisei desmanchar, pétala por pétala, qualquer margarida roubada que eu pudesse lhe dar. Bem rápido eu puxei os fios, cortei com tesoura, rasguei com os dentes, antes que você pudesse chegar e ver tudo que eu já havia tecido para nós. Fios rompidos no chão, enovelados, enosados, sobras coloridas do que não poderá mais ser. Deu tempo. Quando você chegar verá destroços meus no chão. Não verá nossas noites, nossos carinhos, nossas mãos dadas à esmo. Verá só a confusão de fios e panos. Talvez pergunte o que é. Talvez nem se importe. E eu não vou dizer nada. Não vou me importar também. Mas ao sair, ao sair ainda vou olhar para a lã vermelha, toda arrebentada, e vou saber. Só eu vou saber. Aquilo ali já foi o meu coração. E eu havia bordado para dar a você. Mas você não quis.
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Texto caído de uma das poeirentas cartas de Clarissa.
(V. Linné)
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O sermão todo de ontem, foi feito pra mim!
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
“Só quero que seja natural, simples, fácil e bom.”
Olha, fique em silêncio. Eu gosto do teu silêncio. Mas também gosto de tuas palavras - acredite. Mas não vim aqui para te falar de ruídos - ou não - , estou aqui para te falar de céu, mar, estrelas e tapioca - como naquele dia, lembra? - Ontem por incrível que pareça todos os lugares que pisei eu te procurei. Teus rastros ficaram por lá. O balançar de teus cabelos e esse teu jeito meio atacado de ser. Fiquei feliz em poder sentir tua falta, - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém. É assim o nosso ciclo. Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz. Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós.
É, eu gosto muito de ti.
Caio Fernando de Abreu
sábado, 22 de janeiro de 2011
Nineteen!
Refletindo sobre os meus 19 anos, vi que não havia feito nada de nada com a minha vida e que a cada dia que passava, sabia menos ainda o que fazer com ela.
Aos 19 anos, Clarice Lispector tinha escrito Perto do Coração Selvagem. Rachel de Queiroz, O Quinze. Mozart, com 19 anos, produzia uma média de 4 composições (incluindo pelo menos uma obra-prima) por mês. Com 19 anos, Gustavo Kuerten (Guga), se profissionalizou no tênis e o João, um amigo meu, com 19 anos, foi assassinado!
#Tenso
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
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